domingo, 17 de junho de 2012

Ao som da música

  O abraço é o encontro de dois corações. A dança é a expressão corporal da alma. Não haverá nada de mais belo e significativo no mundo do que dançar abraçado: dois corações apaixonados, a expressão do amor, a face de Afrodite contorcendo-se de alegria, o céu estava em festa. Ali, onde em dias normais reside o tédio e a monotonia, jazia um casal, não desses que se vê sempre, eram amantes, verdadeiros amantes. Ambos hipnotizados de amor; cegos pela certeza de que abraçavam o seu porto seguro; protegidos, um no braço do outro, dos males desse mundo que nunca compreenderá os apaixonados. 
  Não precisava ter poderes especiais para traduzir perfeitamente o que seus olhos já gritavam, qualquer pessoa, por mais insensível que fosse, se comoveria diante da cena e impulsivamente desejaria amar também, e ser para alguém como ela era para ele, e ele era para ela: insubstituível. 
 Em perfeita sintonia, ao ritmo da música suave que seus passos seguiam despreocupadamente, a felicidade deles era tamanha que jorrava pelos olhos, repuxava-se em sorrisos, e afim de se prenderem para sempre apertavam-se ainda mais num laço divino a que costumeiramente as pessoas chamam de abraço.  
 Quando coincidentemente seus olhos se encontravam tudo no mundo se tornava vergonhosamente feio, desde de a beleza de uma noite de lua cheia à beira mar, até o pôr do sol no campo que emana tranquilidade, aquele olhar transmitia a intensidade do que eles nunca haviam sentido antes, e do que desejavam que durasse para sempre.   
  Sempre, a palavra certamente preocupava ambos, não que descressem na eternidade de um amor que ultrapassa a barreira do que nos é palpável, é só que o simples pensar em algo que os separasse latejava como ácido corroendo a pele de seus rostos encantados de amor. Se apertaram ainda mais naquele instante, afim de afastar o pavor que era pensar na partida. Romeu e Julieta os invejariam, quanto amor nutria aquele jovem casal.

sábado, 9 de junho de 2012

O lago, o barco e nós

Havia um lago.
Dentro do lago, havia um barco.
Dentro do barco, havíamos nós.
Dentro de nós, havia o que desconhecíamos.
Por nos desconhecermos, nos conhecemos.
Ao nos conhecermos, nos enganamos.
Ao nos enganarmos, acreditamos.
No dito e no ouvido, 
no que não desejávamos,
no que na verdade não era pra ser, e foi, e é.

Ainda no lago, 
ainda no barco, 
ainda desconhecidos, 
veio a tempestade.
Acabando com tudo... 
O barco virou,
perdemos os remos,
nos perdemos. 
Solitários, incompreendidos, mentirosos, amantes. 

Nos desenganamos, 
nos afastamos, 
nadamos para longe, 
para nos abrigar, 
para nos esquecer,
para virar pó no filtro de uma memória de boas lembranças gastas pela tempestade. 

E então veio o sol, 
e como Imã e metal, 
nos re-atraímos,
nos re-aproximamos, 
nós tentamos.  
Descobrimos que apesar de no barco corrermos riscos, 
e fora dele, não haver risco algum, 
não correr o risco de uma tempestade, significava nunca desfrutar de uma manhã de sol.
E nós amávamos o sol. 
E amávamos o barco. 
E talvez, nós também nos amássemos.







terça-feira, 5 de junho de 2012

Algo

  Caminhava pela rua como sempre fizera, desatenta, voltada tanto para si que não seria capaz de memorizar por certo o caminho, e sabia que não se perderia pelo reconhecimento da rua clara, doce e silenciosa a que se destinava. Mais uma dia comum. Seria mesmo isso? Talvez não, o dia comum a que ela havia se habituado meses antes era um tanto alegre e despreocupado, risos de piadas cujo o dono ela simplesmente gostava, assim, sem nenhum para quê. Sem amar, sem se amarrar, sem exigir, sem nada... 
    A vida nunca consegue ser clichê, embora seja ela, por ser vida, um clichê enorme. Seus olhos, sem motivos palpáveis enchiam-se de lágrimas ácidas, pesadas, inesperadas. Cantarolava baixinho, para afastar a melancolia, para se vingar da dor, para espantar as lágrimas, calar os pensamentos, e ir contra o coração.
  Essa coisa de amar, de dar certo, de acreditar, de chegar a hora, talvez seja superestimada demais. E só por isso é que dói tanto, se começássemos algo sem esperar que ele foste, além do algo, ele seria apenas algo, e por ser apenas isso, jamais doeria. Se não tentássemos crescer a pequena fogueira na clareira no centro da floresta, por certo, poderíamos sentir frio, mas em compensação, ela nunca incendiaria todo o resto. Seria sempre pequena fogueira. E o algo, sempre algo. Impreciso. Inexato. Não denominado. Simples. Algo que não importa.