Caminhava pela rua como sempre fizera, desatenta, voltada tanto para si que não seria capaz de memorizar por certo o caminho, e sabia que não se perderia pelo reconhecimento da rua clara, doce e silenciosa a que se destinava. Mais uma dia comum. Seria mesmo isso? Talvez não, o dia comum a que ela havia se habituado meses antes era um tanto alegre e despreocupado, risos de piadas cujo o dono ela simplesmente gostava, assim, sem nenhum para quê. Sem amar, sem se amarrar, sem exigir, sem nada...
A vida nunca consegue ser clichê, embora seja ela, por ser vida, um clichê enorme. Seus olhos, sem motivos palpáveis enchiam-se de lágrimas ácidas, pesadas, inesperadas. Cantarolava baixinho, para afastar a melancolia, para se vingar da dor, para espantar as lágrimas, calar os pensamentos, e ir contra o coração.
Essa coisa de amar, de dar certo, de acreditar, de chegar a hora, talvez seja superestimada demais. E só por isso é que dói tanto, se começássemos algo sem esperar que ele foste, além do algo, ele seria apenas algo, e por ser apenas isso, jamais doeria. Se não tentássemos crescer a pequena fogueira na clareira no centro da floresta, por certo, poderíamos sentir frio, mas em compensação, ela nunca incendiaria todo o resto. Seria sempre pequena fogueira. E o algo, sempre algo. Impreciso. Inexato. Não denominado. Simples. Algo que não importa.
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