domingo, 29 de julho de 2012

Let there be love

  Acalma-te menina, tranquiliza-te, respira fundo, respira de novo, repete isso até que finalmente a névoa se dissipe, até que tua visão - não mais trêmula - foque bem o que tens de enxergar, só o que te completa, te melhora, te engradece. Morena, apenas sorria, permite-te desfrutar do doce da vida, não cobra tanto de ti, não faz do amor um cálculo matemático, nem vive para agradar a todos. 
  Aprende, menina dos olhos negros esbugalhados, que não se pode obrigar a sentir determinadas coisas, tudo vem com o tempo... Até o desprezo, a vontade de se afastar, de deixar ir, de dizer finalmente : vai, que eu fico bem sem ti - e não sentir o peito pesar de arrependimento - e então tu poderás sorrir por fim, mesmo tendo se despedido, mesmo tendo deixado ir, sem mágoas ou desavenças, a paixão acabou, porque verdadeiramente a vontade de cuidar nunca estivera em vossos corações, ali residiu somente o prazer de vos unir em carne, o amor nunca havia sequer nascido. 
  E então tu vais cuidar de quem te quer ver feliz, ainda que sem possuir-te, sem tocar-te, sem lábios nos lábios. Vais dedicar-te a quem zela por ti, e tem como desejo o de remar no mesmo barco que tu, de encontrar-te mesmo que nem tu mesma saibas onde estais, de te levantar quando estiveres no chão, alguém que ame tuas qualidades, e te ame o suficiente para aguentar teus maiores defeitos, talvez, minha doce pequenina, a resposta da tua pergunta seja: let there be love - deixa vai, deixa que o tempo cuida, o tempo faz existir, faz florescer - e não esquece, little darling, o caminho é um só. 

domingo, 17 de junho de 2012

Ao som da música

  O abraço é o encontro de dois corações. A dança é a expressão corporal da alma. Não haverá nada de mais belo e significativo no mundo do que dançar abraçado: dois corações apaixonados, a expressão do amor, a face de Afrodite contorcendo-se de alegria, o céu estava em festa. Ali, onde em dias normais reside o tédio e a monotonia, jazia um casal, não desses que se vê sempre, eram amantes, verdadeiros amantes. Ambos hipnotizados de amor; cegos pela certeza de que abraçavam o seu porto seguro; protegidos, um no braço do outro, dos males desse mundo que nunca compreenderá os apaixonados. 
  Não precisava ter poderes especiais para traduzir perfeitamente o que seus olhos já gritavam, qualquer pessoa, por mais insensível que fosse, se comoveria diante da cena e impulsivamente desejaria amar também, e ser para alguém como ela era para ele, e ele era para ela: insubstituível. 
 Em perfeita sintonia, ao ritmo da música suave que seus passos seguiam despreocupadamente, a felicidade deles era tamanha que jorrava pelos olhos, repuxava-se em sorrisos, e afim de se prenderem para sempre apertavam-se ainda mais num laço divino a que costumeiramente as pessoas chamam de abraço.  
 Quando coincidentemente seus olhos se encontravam tudo no mundo se tornava vergonhosamente feio, desde de a beleza de uma noite de lua cheia à beira mar, até o pôr do sol no campo que emana tranquilidade, aquele olhar transmitia a intensidade do que eles nunca haviam sentido antes, e do que desejavam que durasse para sempre.   
  Sempre, a palavra certamente preocupava ambos, não que descressem na eternidade de um amor que ultrapassa a barreira do que nos é palpável, é só que o simples pensar em algo que os separasse latejava como ácido corroendo a pele de seus rostos encantados de amor. Se apertaram ainda mais naquele instante, afim de afastar o pavor que era pensar na partida. Romeu e Julieta os invejariam, quanto amor nutria aquele jovem casal.

sábado, 9 de junho de 2012

O lago, o barco e nós

Havia um lago.
Dentro do lago, havia um barco.
Dentro do barco, havíamos nós.
Dentro de nós, havia o que desconhecíamos.
Por nos desconhecermos, nos conhecemos.
Ao nos conhecermos, nos enganamos.
Ao nos enganarmos, acreditamos.
No dito e no ouvido, 
no que não desejávamos,
no que na verdade não era pra ser, e foi, e é.

Ainda no lago, 
ainda no barco, 
ainda desconhecidos, 
veio a tempestade.
Acabando com tudo... 
O barco virou,
perdemos os remos,
nos perdemos. 
Solitários, incompreendidos, mentirosos, amantes. 

Nos desenganamos, 
nos afastamos, 
nadamos para longe, 
para nos abrigar, 
para nos esquecer,
para virar pó no filtro de uma memória de boas lembranças gastas pela tempestade. 

E então veio o sol, 
e como Imã e metal, 
nos re-atraímos,
nos re-aproximamos, 
nós tentamos.  
Descobrimos que apesar de no barco corrermos riscos, 
e fora dele, não haver risco algum, 
não correr o risco de uma tempestade, significava nunca desfrutar de uma manhã de sol.
E nós amávamos o sol. 
E amávamos o barco. 
E talvez, nós também nos amássemos.







terça-feira, 5 de junho de 2012

Algo

  Caminhava pela rua como sempre fizera, desatenta, voltada tanto para si que não seria capaz de memorizar por certo o caminho, e sabia que não se perderia pelo reconhecimento da rua clara, doce e silenciosa a que se destinava. Mais uma dia comum. Seria mesmo isso? Talvez não, o dia comum a que ela havia se habituado meses antes era um tanto alegre e despreocupado, risos de piadas cujo o dono ela simplesmente gostava, assim, sem nenhum para quê. Sem amar, sem se amarrar, sem exigir, sem nada... 
    A vida nunca consegue ser clichê, embora seja ela, por ser vida, um clichê enorme. Seus olhos, sem motivos palpáveis enchiam-se de lágrimas ácidas, pesadas, inesperadas. Cantarolava baixinho, para afastar a melancolia, para se vingar da dor, para espantar as lágrimas, calar os pensamentos, e ir contra o coração.
  Essa coisa de amar, de dar certo, de acreditar, de chegar a hora, talvez seja superestimada demais. E só por isso é que dói tanto, se começássemos algo sem esperar que ele foste, além do algo, ele seria apenas algo, e por ser apenas isso, jamais doeria. Se não tentássemos crescer a pequena fogueira na clareira no centro da floresta, por certo, poderíamos sentir frio, mas em compensação, ela nunca incendiaria todo o resto. Seria sempre pequena fogueira. E o algo, sempre algo. Impreciso. Inexato. Não denominado. Simples. Algo que não importa. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Faça-me um favor, suma, agora, neste segundo, não deixe nada que lembre-me que alguma vez houve alguém aqui de novo. Leve seus pertences, não quero lembrar dos seus olhos ao ver seus óculos jogados pelo meio da casa, não quero lembrar que algum dia conheci alguém que fosse até mesmo remotamente parecido com você, leve tudo, exceto o que é meu por direito, e com isso quero dizer apenas o meu coração. Vá. Não me olhe com aquele olhar de quem quer ficar mas não quer significar muito, não lhe quero pela metade, é tudo ou nada. Não tente se despedir ou dizer adeus, ao invés disso não me olhe nem nos olhos, dê apenas as costas, e ao sentir a fisgada da dor que será sua ida eu simplesmente tentarei fingir que você é apenas um desconhecido qualquer, então meu bem, por favor não me olhe, não me deixe tentar(mais um vez) descobrir a cor dos seus olhos e saber o que pensas. Apenas vá. Assim, sem mais delongas, sem despedida, parta que nem borboleta, de repente, sem aviso, vá e parta sem mim. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Livres para sermos controlados

  Para além dos muros da filosofia que apenas questiona, pergunto-me e busco uma resposta: Será que somos mesmo livres? Será que não há realmente (direta ou indiretamente) meios que assim como a ditadura de 64 nos calam a boca? Ou pior, nos calam o pensamento? Eu acredito piamente que somos sim limitados quanto à liberdade de expressão na qual tantos e tantos acreditam.
  A televisão é a prova concreta de que os meios de manipulação em massa são mais eficientes do que o "cale-se" ditador, basta observar a indiferença da maioria das pessoas quanto aos absurdos que claramente, ainda acontecem no Brasil.
  A indústria televisiva empurra aos seus telespectadores as mais diversificadas e inúteis novelas, reality shows, jornais (com o tempo muito menor em comparação aos ocupados por novelas e outros programas) que omitem grande parte dos fatos que acontecem. 
  Assistir TV hoje em dia é uma perda de tempo tão grande quanto contar carneirinhos antes de dormir, mas nem todos sabem disso. Consciente de seu poder de manipulação a mídia é incansável, controla, aliena, nos cala, até que concordamos sem saber com as mais diferentes atrocidades vindas do próprio governo brasileiro, tudo acontece bem debaixo de nossos narizes, no entanto estamos todos vendados.
  Sem falar na maior e mais poderosa indústria de alienação brasileira, o bom e velho futebol. Chamem-me de radicalista ou que quer que seja, mas por que o governo estaria tão preocupado com a construção de tantos estádios? Se você que isso é porque eles se importam bastante com o fato dos brasileiros precisarem de diversão, precisa enxergar o outro lado da moeda. Tudo não passa de uma estratégia de controle da sua liberdade, que a muito você perdeu sem nem perceber.
  Um cidadão que perdeu a capacidade de questionar seu governo perde por completo a liberdade, achando que a tem; sabendo disso o estado permanece intocável, em toda sua "democracia".
  Somos todos vendidos, o ano inteiro o governo nos compra com futebol, carnaval, São João, bolsa família, bolsa escola, isso e aquilo outro, e nós aceitamos, consentimos com a papagaiada que uma grande maioria gosta de chamar de "democracia", e no fim votamos alegres e satisfeitos, já esquecidos que o Brasil é a quinta maior potência econômica do mundo e não garante saúde e educação básica para a sua população.
  Vivemos anos tão difíceis quanto os da ditadura, por confiarmos o Brasil a um governo que engana nosso povo, corrompe nosso dinheiro e violenta nossa população, porque sim, fome é violência, falta de educação é violência, e das piores. Confiamos o Brasil há um governo que cobra-nos impostos caros, só para encher seus próprios bolsos, e faz isso sem pudor por ter a certeza que nos desarmaram. Esquecemos dos erros que cometemos ao termos (com exceção dos comunistas que assim como a minoria consciente das atrocidades do governo lutou) nos deixado calar uma vez, na longa ditadura de 64. Será que uma só vez não será o suficiente para que aprendamos a lição?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Amanhã

  Discreta, tímida, chega como quem não quer nada, primeiro olha tudo de longe, sorri distante, aproxima-se as vezes só pra depois te deixar novamente, vai e volta, nunca fica de vez, e tu vais acreditando na alegria mesmo tudo sendo sempre igual. Convence-te mil, um milhão de vezes se preciso de que a vida é linda. 
 Até que ela vem, segura tua mão e acompanha-te, sorri enquanto choras sem um pingo compaixão. Logo depois te faz conformada, quando a noite cai ela põe-te para dormir, quando o dia amanhece te acorda com um ríspido bom dia, ao meio dia anda ao teu lado até tua casa. 
  Está nas músicas, nas ruas, nos rostos apressados à caminho do trabalho, está nos livros, está em tudo. Sempre. Está nas fotografias antigas, ainda que estejas sorrindo, e está principalmente enfiada no teu peito, misturada ao teu sangue, injetada sem teu consentimento. 
  No entanto, estais tão cansada de resistir que a abraças, dá as boas vindas, conforma-te, como nunca concordou em fazer. Cansada, deixas tudo para amanhã. Amanhã eu luto, amanhã eu vejo o sol, amanhã eu vou à praia, amanhã quem sabe eu saio um pouco, amanhã eu leio, amanhã sorrio, amanhã estudo. Amanhã é sempre depois de amanhã e depois de amanhã é sempre semana que vem e semana que vem demora meses, anos, muito tempo pra chegar. E entre os amanhãs desta vida, vou me conformando devagar, com essa tristeza suave, doce, dilacerante. Amanhã ela há de passar.