Penas pairavam sobre o ambiente, risos ao fundo, o som vez mais próximo, a imagem se desenhando perfeitamente a cada passo à frente, quando finalmente tudo tornou-se nítido eu parei. Erámos eu e você. E eu nos via, mas eu também vivia. Só que tudo separadamente, ao mesmo tempo que era eu quem ria, eu não fazia parte daquilo, como se eu fosse a narradora observadora da minha própria história. De início eu me perguntei o que tudo aquilo significava, estranhei, é lógico, mas por fim, como uma criança que ao longo do crescimento passa a parar cada vez mais de se questionar, cada vez que eu via mais aquela cena eu aceitava que nunca poderia entendê-la. Apenas analisa-la.
O quarto era branco, pequeno, pouco à pouco notei que era na verdade, o meu quarto. Poucos móveis, alguns adornos delicados, vários pôsters dipostos organizadamente em apenas uma das paredes, uma escrivaninha muito útil e estantes de livros abarrotadas cobrindo uma das paredes, havia também um notebook e uma porta que dava para o closet e o banheiro, organizados e arquitetados exatamente como eu desejava. Em cima da cama, havia o novo morador do quarto, tinha acabado de ganha-lo de presente de John. Era lindo e totalmente clichê, igual o cenário, igual a nós, igual a todos os meus pensamentos naquele dia, igual a tudo que passou-se. Chamei-o de Tedd, nome comum aos ursos, pelo menos aos meus, recordo-me de que quando eu era criança todos os meus ursos chamavam-se Tedd.
Quanto as penas, provinham todas elas dos meus travesseiros, usados como armas na luta que era travada entre eu e John, meu riso era estridente, o que o fazia cessar a pancadaria (ele batia como uma menininha para não me machucar) e contorcer-se de rir da minha risada. Confesso, eu rio mesmo muito engraçado. Enquanto ele fazia isso, eu tentava parecer chateada, revirava os olhos, batia o pé, chamava-o de idiota, dava-lhes travesseiradas e por vezes dava-lhes tapinhas de leve. A luta continuava, e nós dois nos divertíamos como nunca. Caímos ao chão, bobos, infantis, idiotas, apaixonados. Vez ou outra nos beijávamos, só pra depois rir de novo de toda a situação, incomum, clichê demais. Tudo era lindo, nós realmente nos gostávamos.
De fora, eu encarava aquela cena tentando entendê-la, e pouco à pouco, a memória de algum dia tê-la vivido chegava. Foi quando aconteceu. Tudo caiu sobre mim como uma avalanche, um turbilhão de pensamentos me invadiu, e eu senti as lágrimas correrem, quentes, chocantes, destruidoras. Sentia a dor que queimava de dentro para fora, como se uma fogueira tivesse sido acesa dentro de mim, e me ferisse. Os sentimentos mudavam, a cada segundo que pensava no que havia acontecido. Eu sentia raiva, dor, saudade, não sabia qual mais me machucava.
Eu morri. Não posso acreditar que morri. Foi naquele dia lindo, que logo desfez-se em cinzas que tudo aconteceu. Eu estava em casa, mamãe preparava o almoço, John havia descido para pegar chocolate e saciar nossa fome depois da guerra de travesseiros, e meu pai aguava o jardim lá fora. Tudo corria tranquilamente naquele domingo chuvoso de Julho, até acontecer. Por algum motivo, o gás na cozinha começou a vazar, mamãe gritava por mim, mas a música alta em meus ouvidos não permitia-me ouvir, as chamas já haviam tomado a escada, todos tentavam me alcançar de alguma maneira, em pouco tempo, tudo ardia em chamas, e o fogo alcançava meu quarto, Fui até a janela engradada e notei tarde demais que John gritava por mim, desisti antes mesmo de tentar lutar. Tudo queimava e lembro-me de ter sentido uma dor intensa quando o fogo atingiu meu corpo, mas não maior do que a de saber, que tudo o que eu amava perdeu-se no tempo. Aproximei-me de John, o da cena, que atirava-me travesseiros, tentei abraça-lo, mas era como tentar abraçar o vento. Ao invés disso, encarei-o uma última vez. Inspirei fundo, e senti novamente as lágrimas rolarem por meu rosto. Em seguida, fui tomada por um sentimento de foi-bom-viver, para depois voltar a amaldiçoar a morte, e desejar profundo que tudo não passasse de mais um pesadelo.
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