" (...) Frequentemente me assusto, pensando que a vida vai acabar sem que eu encontre um grande amor ou uma grande amizade, ou mesmo uma grande vocação que justifique esse isolamento. Mas nada posso fazer, essas coisa acontecem sem que a gente as procure. O melhor a fazer é deixar "lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar", como disse o poeta. E mesmo assim talvez eu continue a fazer as refeições sozinho durante toda a vida.
Muitas vezes tentei dizer essas coisas às pessoas. É tão difícil. Se elas são adultas, o que fazem é sorrir meio de lado, como quem diz: "Mas isso faz parte do jogo." E se são da minha idade, me olham com um olhar onde se reflete meu próprio desamparo, dizendo palavras que a minha voz também poderia pronunciar. É assim com Marlene. Foi assim com Bruno. Só agora sinto que as minhas asas era maiores que as dele, e que ele se contentava com os ares baixos; eu queria grandes espaços, amplitudes azuis onde meus olhos pudessem se perder e meu corpo pudesse se espojar sem medo nenhum. Queria e quero - ainda. Voar junto com alguém, não sozinho. Mas todos me parecem tão fracos, tão assustados e incapazes de ir muito longe. Talvez eu me engane, e minhas asas sejam bem mais frágeis que meu ímpeto. Mas se forem como imagino, talvez esteja fadado à solidão.
Quando escrevo poesia, é sobre isso que escrevo: o medo da solidão como sina. E vivo a lavrar o campo, a limpar a casa, a colocar as coisas nos seus lugares certos; só que o que eu espero é a Desejada não a Indesejada. Espero a Vida, não a Morte. Não sei se virá. E não sei se apenas por estar dentro dela, isso significa que ela esteja em nós, em mim.
Estou me repetindo, dizendo mil vezes a mesma coisa. No fundo, há só uma verdade: me sinto só. Talvez seja essa a causa dos meus males. Ou será o desconhecimento do que sou, como escrevi ontem? O que sei é que as coisas que preocupam podem ser resumidas em poucas palavras: Deus, solidão. E no fundo, o que existe sou eu. Como um grande ponto de interrogação sem resposta."
Caio Fernando Abreu - Limite Branco
PS: Trecho retirado do primeiro romance escrito por Caio, chamado Limite Branco, um livro excelente, apesar de não ser considerado um dos melhores do escritor, super recomendo essa leitura. Dado que, foi o primeiro que li desse autor, e bom, eu adorei. Não o indico para os que buscam coisas fofas, o livro é sobre monotonia, solidão e essas coisas assim. E também contra-indico para quem vive lendo frases de Caio porque "tá na moda". Literatura não pode ser considerado moda. É um livro, uma preciosidade, não uma roupa de marca que você compra e quando saí de moda para de usar, então, deixo o meu vai se fuder se você gosta do Caio porque "tá na moda" e é fofinho. Para quem quer mesmo é conhecer sua obra, vá em frente! É um excelente livro.

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