Quase não tive tempo de me assustar com tamanha a rapidez em que ele invadiu o vestiário feminino, pra sua sorte, e talvez meu azar, havia apenas eu no vestiário. Virei-me para olhar em seus olhos, com olhar mais penetrante e incômodo que consegui transmiti, ergui as sobrancelhas em desdém, e esperei que ele se explicasse.
" Acho que entrei no banheiro errado. Desculpe"
Tudo bem. Talvez eu tivesse mesmo cara de idiota, mas, não era, usei de meu mais arrogante tom de voz e da maior grosseria possível.
" Espera que eu acredite mesmo que não viu a placa totalmente legível que há na porta?"
" Sim, era o que eu esperava." - Ele respondeu sem hesitar, aquilo me irritou ainda mais.
" Acho que você dirá o mesmo quando for suspenso por invadir o banheiro feminino e ainda fazer gracinhas." - Respondi no mesmo instante
" Acho que não. Quem contaria? Paredes não falam, e bom, não vejo alguém que possa contar dessa minha pequena aventura."
" Talvez você precise ser menos convencido, saiba que eu contarei, e a propósito, qual seu nome?"
" Arthur. Qual o seu? "
" Não lhe interessa." - Respondi, ainda em total arrogância.
" Soaria muito clichê se eu fizesse gracinhas sobre essa sua resposta?" - Ele carregava um sorriso leve e debochado no rosto, a expressão tranquila e despreocupada, quase sedutora.
" Na verdade soaria. Meu nome é Sara."
" Achei que você achasse que não me interessava, embora também tenha achado bastante interessante saber como se chama." - Ele tinha as mãos no bolso da calça surrada, e agora estava mais próximo.
" Hm. Ótimo, ainda assim direi ao diretor. Mas, porque mesmo você entrou aqui? Não presuma que isso seja um elogio, mas, você não me parece ser um desses idiotas que entram para dá uma de machão e arrancar gritinhos das garotas, e também seria um completo aloprado se não visse a placa. "
" Eu podia ser aloprado, idiota também, mas, na verdade me disseram que você não sairia daqui tão cedo, e eu lembrei que prometi que lhe encontraria onde você estivesse." - Ele sorriu ainda mais, e seus olhos suplicavam por reconhecimento. Meu reconhecimento? Pouco à pouco os traços passaram a tornarem-se familiares, permanecemos calados, olhei novamente em seus olhos, com mais atenção, lembrei que alguém algum dia me disse que os olhos eram a porta da alma, não lembrava quem... Era penetrante o seu olhar, e assim que me atentei de verdade à eles, me vi invadida por uma alegria súbita, senti cair todo meu desprezo, minha boca se repuxou num sorriso que agora brincava em meus lábios. Era ele.
Nem que passassem-se um milhão de anos, eu reconheceria aquele olhar, ainda mais subitamente, lembrei quem havia me dito que os olhos eram a porta da alma.
" O que eu devo dizer? " - Eu tropeçava nas palavras, e sentia as lágrimas correrem.
" Se for sincero, gostaria que me disseste, doce Sara, que o nosso amor ainda vive, mesmo depois de todos os ventos contrários, anos passados, meus erros, seus erros, mesmo depois de tudo."
" Mesmo que eu desejasse eu não podia te dizer o contrário."
Seus lábios encostaram os meus, leves, gentis. Seleram novamente um amor que houvera sido contido, eu estava pronta, ele também, nos amavámos, o que temeríamos? Os amores verdadeiros duram para sempre. Me prendi nessas palavras, e quis acreditar com todo o meu ser, eu nunca saberia se não tentasse.
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